Os "loucos" da minha terra
Lembro-me do Tiba desde o início dos anos 50. Não como um velho alquebrado, mas como um jovem pujante. Alto, direito, com uma "juba de leão" que o dignificava e nos atemorizava (nessa altura a cultura da Jamaica ainda não se tinha mostrado ao Ocidente...). Éramos miúdos. Dez, doze anos. Quando o víamos, sempre nas redondezas da taberna do Chico, e nós sempre em grupo ( então a união não faz a força?), muito, mas mesmo muito longe dele gritávamos-lhe: TIBA …. E insistíamos, insistíamos, insistíamos até ele começar a abanar a cabeça pendularmente. Era o alerta … quando menos esperávamos, como que um eco às nossas provocações troava: TIIIIIBAAAAAAA ... Era ver quem corria mais a esconder-se em casa. Morava eu então na rua da Escola Preparatória e a Escola ainda não era Escola mas o Tribunal de Malanje. A partir daí começava o mato e a estrada ia em direcção à Katepa. Do Tiba, que era o TIIIBAAA, nunca lhe soube o nome. Mas que seja o Tiba da memória da minha infância.
Todas as cidades têm os seus “loucos”. Pelo menos parecem-nos.
Outro personagem de referência era um dos irmãos Neves Lima. Aos mais novos conhecia-os bem, ainda que fossem mais velhos do que eu. Deste, dizia-se que tinha endoidecido por muito estudar, em Coimbra. E os mitos constroem-se acrescentando-se mais uns pozinhos e para a imagem ser enriquecida acrescentava-se que tinha conhecido Salazar e que este o admirava …
Encontrava frequentemente o Neves Lima mais velho. Ainda que parecesse pacífico e o nosso contacto se limitasse a troca fortuita de olhares pelas ruas da cidade, nos intervalos do cinema ou na esplanada da Florida, às vezes a nossa comunicação era interrompida pelo seu sorriso: era o olhar-sorriso mais gélido, mais penetrante, mais assustador de que tenho memória.
E havia o Catita. O pacífico. Embalado pelos ritmos brasileiros de então o Catita era a personificação da alegria de viver. E nós acompanhávamo-lo na felicidade da vida de criança, em Malanje, nesses tempos.
