O quintal e as mangas
Necessariamente, se só mangávamos de um lado, o outro estava carregado de mangas. Só nos restava esperar pelos acessos de humor da natureza.
Uns, para passar o tempo, subiam à araçazeira e, se houvesse fruta, araçavam; outros iam para o lado oposto, paralelamente à entrada do quintal, para cima da borracheira.
Eu estava mais vezes na borracheira. Feria-a e, quando não estava a colar um carro made in Manecas, espalhava o látex na mão, deixava secar, recolhia-o fazendo uma bolinha. Depois era só repetir a técnica e ver as bolas de borracha a crescer até atingir, mais ou menos, a dimensão de uma bola de ping-pong.
Quando fazia os carros, com todo o meu investimento criativo e os acabava, frequentemente, cruzava-me com um carro puxado por um miúdo que se dirigia para a sanzala da Katepa ou da Vila Matilde. Então, era ir a correr para casa a ver se a minha mãe se comovia e me dava uns tostões para o comprar. Era cada carro ... E quando comecei a aperfeiçoar a minha técnica e a melhorar no pormenor ( eram os guarda-lamas, as molas, as portas que se abriam e fechavam) apareceram carros com tecnologia outra: feitos de arame e lata. Até tinham as mudanças ao volante. Não valia a pena competir. Restava-me choramingar mais uns tostões.
De repente, e de vez em quando, ouvíamos mangas a cair e a arrastar outras. Era ver quem as agarrava primeiro... …
