Sempre foram os melhores abacates do mundo
Quando Malanje era do tamanho da minha rua, a minha rua não era do tamanho de Malanje. As casas acabavam no então Tribunal, futura Escola Industrial e Comercial, ainda mais futura Escola Preparatória. Foi lá na minha rua, na minha casa, que eu nasci. E cresci. E fui aprendendo a vida.
Cedo, com precisão quase ao minuto, sabia ler o tempo: se ia chover; se era chuva para ficar a tarde toda e a noite ( como era calmante adormecer com o tamborilar nas telhas ); se haveria trovoada; ... era um expert. Quando não se lê o tempo assim, estamos desenraizados. Aqui gosto da precisão meteorológica: vai chover no Norte; no Centro; ou no Sul. Talvez saia molhado ...
Na minha rua era diferente. Ao sair de casa, olhava o céu, mesmo à minha frente, na direcção da Missão e sabia logo tudo. Estava informado. A velocidade com que as nuvens se acastelavam, as cores e mudança rápida do cinzento-quase-branco ao cinzento-azul-quase-negro eram sinais, com margem de erro nula.
Neste momento estou a sair de casa e na minha recordação não há nuvens. Junto-me à malta, passamos pelo Chico-olho-do-cú, compramos açúcar enrolado em papel manteiga-funil, atravessamos a linha do caminho de ferro e seguimos pela rua entre a Missão e o Expurgo. Outro acesso ao Ritondo, que pouco se utilizava. Era um caminho que tinha segredos guardados para nós. Havia uma gajajeira, que quando matizada de amarelo pelos seus frutos era um esplendor de aromas e sabores. Mas hoje não há gajajas. Mais uns metros à frente, em meia dúzia de arbustos, penso que é melhor classificado assim do que referir árvores, a minha fruta número um. De longe. Então, o grupo espalhou-se pelos arbustos. Escolhemos sempre aqueles que já nos conhecem. Sentei-me no meu galho amigo, estiquei o braço, fui apalpando até que encontrei o meu maná. Apetecível. Sem estar muito duro, nem amassado como, às vezes, aparece quando comprado. Arranco-o, à mão, sem faca, no limite com o auxílio de um pau feito instrumento no momento, abro-o ao meio, deito o caroço fora, recorro ao pacote com açúcar, já a lambuzar-me por tudo quanto é lado, despejo um pouco numa das metades, mexo com o dedo, chupo-o pois nada se pode perder, banqueteio-me .
Sempre foram os melhores abacates do mundo.
Nunca mais ...
