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A Jangada

 

Passar férias, escolares ou de Natal, em Camacupa, para quem vivia em Malanje, só tinha uma alternativa: atravessar o Cuanza, ali mesmo a cerca de cinquenta quilómetros. Poder-se-á pensar na hipótese de Capunda, Quimbango ou de Quirima e Sautar a Sul do distrito de Malanje; ou de ir dar uma volta pelo Alto Dondo e tentar Quibala, Bailundo, etc…

O etc. africano, no caso vertente angolano, nos anos cinquenta, eram necessariamente muitos mais dias de viagem, caso não houvesse avaria mecânica, ou todos os pontões estivessem em condições de suportar uma viatura. Os grandes rios, esses eram atravessados por jangada, expoente máximo do domínio tecnológico sobre a natureza naquelas regiões. Assim, tantos anos depois, sinto-me um privilegiado por me ter sido possível viver África no seu esplendor e nas suas contradições de então!!!
Agora, até se pode levantar de um aeroporto e horas, ou minutos, depois, chegar ao destino. Blasfema-se contra os azares da vida, a limparmo-nos do suor que se começou a formar logo à saída do ar condicionado do avião ou do de alguma viatura topo de gama; contra o condutor de uma viatura incauta que levantou pó ao passar; contra um remoinho daqueles que o cacimbo se atreveu graciosamente a manifestar; ou mesmo contra um zeloso funcionário que na generosidade do seu-fazer-bem se atreveu a não espalhar água antes de começar a varrer a zona por onde iam passar …

Ironias da não-África … !!!

Não tenho falsos pruridos ou animosidade anti-contemporânea.

Recordo e gostei imenso daquilo que me foi dado viver, em Angola, na minha Malanje. Consolidaram-me o eu.

Por isso nas minhas viagens, se o pó de Calucinga, Andulo e Nharea se me entranharam e deixaram o sabor e o cheiro daquela terra, as travessias do Cuanza, em jangada, dilaceraram o que de mais íntimo existe em mim: o meu medo e os meus fantasmas da minha África: a máxima dimensão onde se convive com o ínfimo sentir das coisas.

A zona do Cuanza até ao Mussende era infestada de moscardos. E se me mordiam através da lona que nos cobria na caixa da carrinha, o que seria se atravessássemos essa zona com a luz do dia: nunca cheguei a perceber se era por nos verem melhor; ou se estavam a descansar por terem dado berridas aos incautos bichos que se aventuravam com a luz do dia:   pacaças, corças, socos, vacas e bois, homens, etc. O que é certo é que as travessias do Cuanza, antes da ponte existir, só me lembro de as ter feito de madrugada.

Havia um certo ritual. E também, numa portagem simples mas simbolicamente eficaz. Sem pagamento da portagem, não havia travessia. A impossibilidade não advinha do equipamento da portagem, tão frágil, tão a despropósito: de um lado, um pau em forquilha enterrado na areia, com cerca de um metro de altura para suportar uma trave-pau que vinha do outro lado da estrada, constituindo-se na unidade um arremedo de barreira, porque de ambos os lados dos paus, que gritavam a sua autoridade, havia espaço suficiente para camionetas carregadas os poderem tornear. O poder manifesta-se por símbolos simples, hilariantes às vezes.

O meu pai parava sempre a carrinha na portagem, abria a porta, saía e dirigia-se até à casa ali ao lado onde vivia o portageiro. Chamava-o, às vezes, tendo de elevar a voz para o acordar. Mas não pagava logo vindo embora esperando só que levantassem a cancela. Ficava sempre a dar uns dedos de conversa e bebia um café que estava sempre disponível. Como era mágico o cheiro do café na madrugada africana. Entretanto, alguém já tinha ido chamar os jangadeiros, dois ou três. Ensonados e a tremerem de frio, que as camisas esfaceladas de nada protegiam, subiam para a caixa da carrinha e lá se fazia a dezena de metros que nos separava do Cuanza. Começavam então os meus medos, desde sempre escondidos e disfarçados por uma certa tremura de frio. Ao chegar à jangada, com os faróis a fantasgomizar o ambiente, uma nova etapa se anunciava: subir com a carrinha para a jangada, comigo na cabine ou na caixa. Nisto de travessias de rios não se pode dar margem de liberdade às crianças. Então quando ia mais do que uma viatura, elas aproximavam-se dos limites para caberem, era a perícia de quem conduzia que se impunha e a experiência que mandava colocar tábuas-segurança nas rodas não fosse o diabo tecê-las. Uma prenda inolvidável sempre se me revelava, não obstante os faróis se manterem acesos: o céu estrelado de África. E eu não conseguia ver era a margem-destino. Como que uma parede se construía no negrume da noite. Ou talvez fosse a miríade de insectos, que se concentravam no foco, que não me deixavam vislumbrar a segurança da margem. Então, quando a travessia era feita com ou no cacimbo, a maior parte das vezes, ouvir o barulho do rio a responder ao chamamento da foz era aterrador. Ecoando na noite, a lengalenga da toada dos jangadeiros era um conforto, um calor que enchia aqueles momentos. Eles é que dominavam a jangada, à força das mãos calejadas a puxarem por cabos de aço, independentemente do frio e na indiferença de um sono desfeito ao meio da madrugada. Durante a travessia, o meu pai quimbundava com os jangadeiros, como que incentivando e agradecendo todo o esforço.

Contaram-me os meus pais, que depois de casados no Bié, ao regressarem a Malanje, na jangada, a lengalenga dos jangadeiros era enriquecida por uma cantilena anunciadora do casamento.

Como me poderei esquecer dos jangadeiros, da jangada, e do Rio Cuanza?

 

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Oportunamente, o Billy ( Abílio Pinto Victor ) enviou-me um email com um comentário e uma cópia de duas pequenas notícias, saídas no Angola Norte, semanário malanjino, que me limito a dar conta ( comentário e notícias ) como complemento a "a jangada":

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"Aconteceu nos anos cinquenta. Nessa altura estava a ser construída a ponte sobre o Kwanza e a jangada transportava além das pessoas, materiais de construção. Havia duas equipas a trabalhar, uma do lado de Mussende e outra do lado de Cangandala. Por excesso de carga (possivelmente), um dos cabos de aço cedeu. Nessa altura, alguns trabalhadores foram ceifados pela chicotada do cabo e a jangada afundou-se, arrastando consigo todas as pessoas que se encontravam a bordo e uma viatura.

As populações africanas que assistiram à tragédia, batiam com ritmo na água, fazendo imenso barulho e , deste modo, procuravam afastar os crocodilos.

O meu pai era um exímio nadador e com a sua acção, conseguiu  salvar algumas pessoas."