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Os esbracejadores


Estávamos em meados dos anos 50, quando a aspiração independentista africana ganhava adeptos e na ONU começavam a pressionar Portugal. E de um dia para o outro eles apareceram com um certo estilo bajulador, com uma certa existência oportunista. Durante anos foram uma presença constante, mais o seu ritual do faz de conta. No limite, actores passivos numa peça encenada pela História: os esbracejadores que nos pareceram de supetão, por volta de 1954 ou 1955 e ainda se mantiveram até ao início dos anos 60. … ( Cinquenta e poucos anos depois, eles persistem: moldando-se às circunstâncias, ajustando slogans, reproduzindo compadrios, robotizando gestos fruto das campanhas de marketing político, mimatizando tiques. Envergonho-me quando recordo a amanadação despudorada que o PS conduziu nas últimas autárquicas de Lisboa, fazendo chegar à sede de campanha cidadãos desprevenidamente enganados para apoiar um seu correligionário: Malanje, cinquenta anos depois, diluviou sobre mim: em vez de carros do lixo, autocarros.)

Estudava eu no 1º ou no 2º ano do liceu, no Colégio Veríssimo Sarmento. Arregimentavam-nos para o jardim municipal, para o Palácio do Governo Civil. Como nós, alunos de outras escolas eram arrebanhados: os da Escola Comercial e Industrial, as alunas do Colégio das Madres e os das Escolas Primárias da cidade.

Evidentemente, os funcionários públicos também não podiam escapar ao “chamamento”.

As camionetas do lixo e de apoio às obras municipais chegavam abarrotadas, no sentido literal da palavra, e estacionavam do lado oposto do jardim, do lado da estação dos caminhos-de-ferro, onde despejavam a população das sanzalas. Sorte para estes “dedicados” portugueses porque as camionetas não dispunham de sistemas hidráulicos de basculação. O raio de acção da convocação dependia da importância do acto no sentir dos esbracejadores.
Os regedores ataviados ao mais puro estilo colonial iam colocar-se num local visível. Nunca percebi se era para serem mais facilmente contados e identificados, evidenciando a sua presença; se era uma forma de expressarem a angústia de anos de repressão, como que em afronta, em silêncio digno e dorido: “estamos aqui, não têm vergonha?”; ou se era para poderem também beneficiar pessoalmente de benesses coloniais … mais-barril-menos-barril-de-vinho; mais-lantejoulas-menos-lantejoulas para enfeitar as fardas …

Havia de tudo e para todos …

Entretanto, na varanda do Palácio, os esbracejadores num esforço de união iam incentivando os correligionários com soturnos “muito bem”, “apoiado”, enquanto que os chefes da claque no terreno percorriam da Fazenda às Obras Públicas a gritar “Viva Portugal”. Patético. Aqui se começou a ensaiar o movimento “onda” actual dos estádios de futebol. Com uma diferença: quando se chegava ao meio da assistência o bloco inicial dialogava em Kimbundo, num tom monocórdico, não ciente e não sentido, do momento que os esbracejadores entendiam como solene.

Acabado o ritual, sem perceber, porque não conseguia seguir a verborreia, e depois de muitas palmas e assobios de regozijo não sei de quê, a correr dirigia-me para a parte central do jardim, mesmo em frente do Palácio do Governador. Era a delícia, o mel, o perfume, o êxtase, o clímax da jornada.  Os marimbeiros do Duque de Bragança.

Rompia a frente que se entrepunha entre mim e os músicos. Lutava por um lugar. Talvez por ser um kandengue deixavam-me ir avançando até conseguir ver os marimbeiros. Ali, à minha frente. Hoje ainda retenho a magia do momento. Africano. Puro.

Acocorados, como só os africanos o sabem fazer, conscientes de que o tempo não conta, os marimbeiros acocoravam a magia da música. Aos pares, ou isolados, frente às marimbas que os convocavam, iam numa aparente dissonância, entre o timbre metálico e da cana rachada das tábuas sobre as cabaças que percutiam, melodiando e ritmando África. A minha África … ( bem-haja os esbracejadores, que me deram a conhecer estes momentos encantatórios ).

 
Algum tempo depois, um ou dois anos, acastelaram-me. Comecei a integrar este momento com a farda da Mocidade Portuguesa. Estava institucionalizado. Servilmente, passei a pertencer aos "apoiantes tácitos" dos esbracejadores, com direito a situar-me mesmo defronte da varanda do Palácio do Governo Distrital.

Por onde andavam os meus marimbeiros ?...