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Duas versões da lenda


 QUEDAS DOS BEM-CASADOS 1


Conta a lenda que no reino dos Songos havia um soba, que antes da sua morte, reuniu seu povo para anunciar a transferência do poder ao seu sucessor, filho da sua irmã mais velha. Acontece que a sua irmã mais velha tinha filhos gémeos. Um deles ao ser preterido abandonou a sanzala, indo fundar o seu próprio sobado, noutro lado.

Passados anos, o filho de um apaixonou-se pela filha do outro. Essa paixão jamais foi consentida por nenhum dos seus progenitores. O casal vendo que não conseguia levar por diante o seu amor resolveu cometer o suicídio. Cada um foi sepultado no cemitério da sua sanzala.
Anos mais tarde, no local onde cada um fora sepultado, brotaram duas nascentes de rios, que depois de percorrerem vales e veredas, se vão encontrar numa falésia, despenhando-se cada um do seu lado para se unirem no fundo mais além.


João Pitta


QUEDAS DOS BEM-CASADOS 2



Ora conta a lenda que vivia numa sanzala bonda, Miege, uma jovem de grande beleza, que aliava a esse dom da natureza uma bondade inefável. A sua presença irradiava bem estar e dava alegria a toda a sanzala.
Tinha por costume banhar-se nas águas prateadas de uma lagoa próxima, cantando ao som do vento e do marulhar das pequenas ondas. E aconteceu passar por ali um jovem guerreiro e caçador, Cubango, rei do povo Songo, inimigo terrível dos Bondos.

E Cubango viu Miege nua.

- Pelos deuses que criaram todas as coisas, nunca vi coisa mais maravilhosa do que esta em toda a minha vida...nunca vi nada mais belo.
- Mas... quem sois?... - Perguntou Miege embaraçada - Que quereis?
- Não tenhas medo. Sou caçador e guerreiro mas o meu braço só poderia servir-te de escudo contra que quisesse fazer-te mal.
- Mas tu és Songo!...
- Sim, sou Cubango, rei dos Songos e amado por toda a tribo.
- Os Songos são inimigos do meu povo... inimigos de muitas luas e de muitos sóis... e eu sou mulher banda..
- Por todas as forças da floresta não haverá espíritos nem feitiço que vençam esta vontade que agora tenho de paz. Ao ver-te aqui, jamais passará a Lua sobre Lua nem o Sol sobre o Sol sem que acabe a inimizade entre os nossos dois povos.
- Isso é impossível...embora eu me sinta também presa a ti desde o primeiro momento em que te vi... nem sequer fugi... e estou assim...
- Talvez os nossos antepassados nos tivessem reunido agora, para que uníssemos os corpos e dai nascesse a união dos povos inimigos.
- Pois seja, Cubango, meu senhor.
- Miege
E o amor ali nasceu e foi fecundo.

Mas quando os velhos da sanzala souberam daquele amor impossível, chamaram Miege:
- Miege, que fizeste? Esqueceste as leis antigas dos nossos antepassados e queres revoltar os seus espíritos contra nós? Eis que o leão de feitiço ronda as nossas casas e os nossos filhos tremem de medo.
- Mas eu não fiz mal algum... apenas amo Cubango...
- Cubango, o rei dos Songos, dos Songos !?... o nosso pior inimigo?
- Mas ele quer a paz.
- Nunca... toda a maldição dos que morreram cairia sobre o nosso povo. Melhor será que morras a seres contaminada pelo calor inimigo.
- E tendes coragem para me matar? Ainda que o façam ficarei na terra até ao fim dos tempos.
- Seja... pois morrerás hoje mesmo... agora mesmo... para salvação de todos nós.

E naquela hora mataram Miege, a meiga criatura que foi chamada de pecadora. Mas no lugar onde caiu, uma fonte se abriu e jorrou água da terra, se fez fio, depois regato correndo no solo e engrossando sempre mais.

Entretanto o vento levou, em som de batuque, a triste mensagem a Cubango, enquanto nos Bondos o luto fez morada.

E Cuango falou ao seu povo:
- Reuni-vos aqui, valentes guerreiros, para vos comunicar que, mais uma vez, os Bondos nos ofenderam... e esta ofensa ao vosso rei só poderá ser cobrada com a morte.
- Mas, dizei-me - interrompeu um velho - qual foi a ofensa que nos fizeram?
- Pois não sabeis? Vi Miege, a mais bela das mulheres, que já vi e gostei dela. Queríamos a paz... mas eles mataram-na só porque me amava, a mim, o vosso rei, um Songo...
- E achas que por uma ofensa ao teu coração se deve levar todo o povo à guerra?
Morreríamos muitos por uma só mulher... e tu tens entre as mulheres da nossa raça, uma que certamente te agradará.
- Não mais nenhuma antes que Miege seja vingada.
- Pois que assim seja. Vinga-a tu, mas não peças ao teu povo que morra por tua causa.
- E assim abandonais o vosso rei? - Assim o deixais ao sabor da morte?
Poderão todos os Bondos esfacelar tuas carnes. Se isso te acontecer nós te vingaremos... mas por um mal do teu coração não é justo que teu povo morra.
- Pois bem...se me negais o vosso apoio não mais serei o vosso rei, nem minha zagaia será mais ferro que vos dê carne. Morrerá comigo.

E assim foi. Abandonado pelos seus, Cubango, o moço enamorado, espetou em si a sua zagaia, caindo morto no chão. E ali mesmo outra fonte se abriu e jorrou água que se fez fio e depois regato, e correu na terra engrossando cada vez mais.

Conta ainda a lenda que os dois regatos serpentearam na terra em busca um do outro até se encontrarem. E encontraram-se no alto, mais perto das nuvens, lançando-se depois no espaço, na ânsia dum longo abraço. E as suas águas se misturaram num amor eterno para jamais se separarem.

João Martin