Dr Barros
Em Malanje praticava-se algum desporto, sendo que a maioria não estava enquadrado por Associações. Por isso os jogos eram de iniciativa das Escolas, ou de grupos de amigos. Os árbitros eram “agarrados” na altura entre os assistentes que estavam sentados na bancada. A esmagadora maioria praticava uma série de modalidades e conhecia as regras. Mas como qualquer pessoa erravam e ouvia-se frequentemente troca de frases entre os jogadores e o árbitro.
Uma vez, num jogo de handball, foi-me marcada uma falta. Virei-me para o árbitro e, no calor da disputa, exclamei em voz alta qualquer coisa do género "Não fiz nada! ". Ouviu-se uma apitadela forte, autoritária, e peremptoriamente o árbitro disse em voz alta " Volta a dizer qualquer coisa e vai para a rua". Foi a maior punhada na cabeça de que me lembro. Eu que tivera um percurso de desportista limpo, como era possível aquela situação. Ainda por cima era professor na Escola Industrial, conhecia aquele campo até à ínfima rugosidade, conhecia-o desde miúdo. Meio baralhado, caladinho, porque não sabia o que poderia acontecer, continuei a jogar. Mal passei de novo pelo árbitro só lhe disse "Atreve-te". Respondeu-me o mais rasgado dos sorrisos, o ar mais gozado dos que se possa imaginar. Ele era o árbitro: o João Pitta.
João
Deixa-me falar-te do teu avô. O que dele recordo.
Para os que se não lembram, a casa do avô do João Pitta ficava na rua da Escola Preparatória a caminho do Rádio Clube de Malanje. Antes do largo havia o bar do Francisco Henriques, mais uma casa, um quintal e outra casa onde morava, ultimamente, o Amândio. Depois desta, estou a manipular a memória no sentido do Rádio Clube para a Escola Preparatória, havia aí uns 30m sem nada e continuavam as outras casas. Era neste espaço, o meu campo de futebol do bairro, no fim do qual era a casa do avô do João. Para que tenham uma ideia, atrás da casa do Dr Barros, ao tempo, não havia mais construções..
No quintal da frente, sem qualquer portão, mas com uma previdente inclinação que dava acesso a um muito grande espaço, havia entre a casa e a entrada do quintal uma enorme mangueira, que só tinha as melhores mangas. E se havia mais mangueiras naquela zona. Em qualidade e tamanho, tão boas só as de outra mangueira que ficava no espaço entre a nova sede do Sporting e a casa do José Comes.
Na época das mangas escusado será dizer que a tentação era mais do que muita. Só que não podíamos mangar (é a minha palavra para significar atirar com mangas) mangas à toa. Primeiro para as mangar tínhamos que nos colocar entre a casa e a mangueira para que não atingíssemos o telhado. Depois, porque havia horas do dia que não podíamos incomodar o Dr Barros, enquanto preparava os processos. Então, ou era a avó do João que nos vinha dar a luz verde, ou era a mãe, ou era o Alfredo. João Pitta, foi aí nas mangadas que treinei o meu remate em handball. Acredita. Só uma coisa a tua avó não nos ensinou. E devia tê-lo feito: depois da surtida às mangas, devia obrigar-nos a limpar o pátio que estava sempre tão limpo. Ainda estou a vê-la a apanhar as mangas que nós deixávamos. O teu avô, sentado na varanda, junto à sala de trabalho do lado direito, assistia. A nossa paga era quando o teu avô tinha que sair para o tribunal e nós íamos empurrar o Ford T. Então, sempre calmo e atencioso, no seu fato escuro e chapéu, preocupava-se com os mais miúdos como eu e com um sorriso a todos agradecia quando o motor pegava.
" Deixem passar o Dr Barros ... "
