O comboio Malanje - Luanda
Levantar-me às seis, seis e meia, não era madrugar. Naquele dia madruguei, dormindo quase nada toda a noite. A ansiedade era imensa, o desconhecido uma atracção.
Era no tempo em que o período das aulas ainda não tinha sido violentado por interesses, lógicas, do poder central. Estudava-se, frequentava-se as aulas pelo fresco. Na época de mais calor, Janeiro a Abril, realizavam-se as férias.
Estávamos em Março. Naquela manhã, teria cerca de nove anos, iria rumar a Luanda. Pela primeira vez. Já tinha saído de Malanje, várias vezes, mas em direcção ao sul: Silva Porto e Camacupa.
Como comboio não espera, cerca de uma hora antes da partida, transportando as biquatas caminhámos para a estação. Ao aproximarmo-nos do jardim municipal, as gentes já eram mais do que muitas. Apressadas, apressávamo-nos. Na estação, o meu espanto redobrou. Com os primeiros raios de sol vislumbrava a locomotiva com toda a sua potência, fumegava para cima e para baixo, como monstro enraivecido pela espera. As pessoas a falar ao mesmo tempo, conversas cruzadas, acenos e lágrimas, saudações para os familiares e os amigos, gritos para se fazerem ouvir, encontrões para mais rapidamente subir os degraus, aflição porque os que não iam partir ainda estavam dentro da carruagem. Depois, o comboio apitou três vezes. Sem se puxar de armas, que só as conhecia da caça, ou quando com os dedos ou com um pau que indiciava uma arma apontava aos amigos das brincadeiras gritando "mãos-ao-ar-ol-raite-camone-iesse", apanhei um "coice" que me desequilibrou. Era aquele arranque "suave", solavancadamente repetido para o qual, mais tarde, estive sempre preparado. Agradadamente. O caminho do encontro acalma. Longo e do desencontro foi o para São Tomé, ou para as terras-prisões distantes e sem futuro.
A carruagem tinha uma passagem central, aconchegada por bancos laterais de madeira. Só muito mais tarde me recordo das carruagens compartimentadas. Selectivas e longe da festa que era ver algumas quitandeiras mais apossadas na promoção e venda da sua mercadoria. Entravam numa estação ou apeadeiro e saiam no seguinte. A cor, os cheiro e as vozes anunciadoras eram uma profusão de partes da minha Angola. Autêntica. Maior festa ainda era nas paragens do trem. Aí o espectáculo era potenciado pela quantidade da oferta, pela palete infinda das cores e a quantidade das delícias apregoadas. Fruta, doces, peixe seco e bugigangas. Medo de doenças era espectro que se não anunciava. Já tinha bebido da água da Katepa. Nadado no Kapopa.
A paragem na Canhoca dava para descansar cerca de meia-hora dos solavancos do para-arranca, do balancear nas curvas e da chiadeira das rodas nos carris. Nem a paisagem dava para esquecer. As extensões verdes do planalto, as florestas entre o Lucala e a Canhoca e os precipícios com pano de fundo de matas de árvores enormes feitas pequenas lá no fundo e de múltiplas matizes encantavam. Concentravam a atenção e timbravam para sempre as recordações.
Só comi no restaurante da Canhoca uma vez. A fama do serviço demorado e da comida a escaldar e da corrida para reapanhar o comboio que partia não confirmei quando gastei um dia de viagem dos cincos dias de licença militar que tive. Até gostei do eterno bife com batatas fritas. Sempre um luxo naqueles tempos. Ou foi da cerveja gelada?!!. De resto, era sempre um farnel daqueles que só as mães e avós sabem fazer.
A seguir vinha o Luinha. Bem a propósito. Ainda dava para se comprar a sobremesa. Aí reencontrei a minha segunda fruta preferida. Tinha-a conhecido em Camacupa. Mas, ali durante a viagem tinha outro sabor, outro gosto. A fruta pinha, anona no sul.
Atravessávamos a bonita ponte de ferro e a viagem começava a ser cansativa: o calor e humidade do litoral; a paisagem arenosa e seca a aumentar os solavancos, os ruídos e os chiar dos para-arranca; e o pó. Só mesmo a máquina me cativava. Tirava a cabeça por uma janela e olhava-a, admirando-a nas curvas. Altaneira, persistente no vai-e-vem dos veios embolando o movimento das rodas, e cansada na fumaça suada era a pujança em pessoa. Então à noite com a mancha de luz de Luanda ao longe a atrair-nos qual insecto a quem o pó que se ia comendo e que impregnava tudo não contava. Contrabalançava-se com o fresco aparente que se sentia, ou recolhíamos a cabeça quando chocada com um insecto indisível daqueles da noite africada. E o fogo de artifício que saía da chaminé !!!...
Luanda. Um assombro. Tanto carro. Tantas pessoas juntas. Tantas casas. Tanta luz. Tanto calor húmido.
Pela manhã cedo cedinho levantei-me. Já as cigarras cigarreavam por tudo quanto era lado. Não sabia de onde vinha aquele clamor. Mas estava lá. O retinir era assustador. Com o sol a entrar pela cabeça e a explodir lá dentro.
A casa da minha tia era no Bairro do Cruzeiro. Mesmo em frente o Bairro Operário. Andei um pouco e o deslumbramento aconchegava ... o mar espelhando o sol … e o cheiro a maresia que de longe chegava ... só há pouco tempo vi escrito e descrito essa sensação de luz-cor-cheiros: zulmarinho.
Depois vieram as garrás ( não sei escrever ), as automotoras e as compartimentações que dividiram classes e raças. O encantamento acabou
