O Carnaval
Anunciava-se à distância, sem palavras. Era a tradição feita ansiedade pela chegada do dia. A festa fundia-se nas vivências urbana portuguesa e sanzaleira africana. Qual delas a mais aguardada?!!
De um lado, era a música e o ritmo que ecoavam na espera, idealizando o que pela tarde explodiria no improviso criativo, na hora, genuíno, como uma revelação. Sabia, com a certeza dos que olham para o tempo com indiferença pelos ponteiros dos relógios, que sempre pela tarde apareciam, mais minuto menos minuto, os grupos que irradiavam das sanzalas que circundavam Malanje.
Do outro lado, logo pela manhã cedo, cedinho, começávamos a movimentar-nos na angariação de uns tostões para irmos comprar fuba; arranjar alguns jornais velhos ou qualquer folha de papel, que não abundavam, uma folha de papel era uma folha de papel; pedir umas latas emprestadas e verificar se estavam furadas; encher as latas com água, em verdadeiras acções de saque, estrategicamente preparadas para as nossas mães não toparem -- a água ainda não corria pelas torneiras; preparar bombas-de-papel-com-fuba e acondicioná-las em locais previamente escolhidos e estudados; e conversar com um ou outro cujo pai tinha uma carrinha, que não proliferavam, para garantir meios de ataque para a tarde.
Era sempre o som que me fazia saltar da cama onde obrigatoriamente fazia a sesta. Corria a sentar-me no degrau da minha casa que dava directamente para o passeio.
Os grupos de Carnaval tinham começado a movimentar-se.
O da Katepa via-o e ouvia-o duas vezes. Uma primeira na entrada para a cidade. Mais de uma centena de pessoas. Em dois grupos, perfeitamente organizados: à frente o dos dançarinos e músicos; logo imediatamente a seguir o dos acompanhantes, que nunca se adiantava e circundava o primeiro quando este parava para trocar-exibindo a sua arte por uns tostões. Uma segunda vez, no rescaldo, quando regressavam a casa, cansados pelo esforço de toda uma tarde, mais desorganizados, descompostos pelo suor e fragilidade dos trajes, como que oferecendo as sobras, ainda paravam e despediam-se, ritmados pelo apito do maestro que acompanhava os seus movimentos tipo galo-na-corte-à-galinha e pelos coros das mulheres e dolências dos batuques que se preparavam para esfriar, até ao ano seguinte.
Havia rivalidade entre os grupos. Esmeravam-se nos limites das suas possibilidades. Tinham um sentido de espectáculo único. Não se misturavam. Evitavam-se mesmo. Deparando-se numa rua, ou retrocediam, ou faziam uma paragem para acumular energias avinhando-se.
A meio da tarde apareciam as carrinhas. Nunca percebi de quem era a iniciativa. Sabem, não havia telemóveis e o telefone era da exclusiva propriedade dos Correios e da Estação dos Caminhos de Ferro. Dou de barato o do Governo Civil. Mas, de um momento para o outro víamos "os monstros" no início da rua. Íamos logo para "os postos de combate". À medida que as carrinhas entravam na zona de tiro os ocupantes da carroçaria eram fustigados pelas bombas-papel-fuba e pela água. E respondiam com água e fuba. Riamo-nos, gritávamos, divertíamo-nos. Se reduziam a marcha para enfrentarem num corpo a corpo os defensores da minha rua - se repararem ainda não disse o nome da minha rua, porque não sei, nunca soube - confluíamos para esse ponto e saíamos sempre vencedores. Éramos em maior número. Na minha rua nunca ninguém venceu. Penso que nas outras ruas também não houve derrotas. Nunca fui na caixa da nossa carrinha. Era lugar para os mais velhos.
Já ao pôr-do-sol fazíamos o balanço da tarde das festas urbana e das sanzalas. Era um repor de aventuras ainda quentes e de danças encantatórias.
Depois, assim, de repente, nunca mais houve o meu Carnaval. Tinha sido proibido o da sanzala. O da cidade foi desaparecendo também. Não por solidariedade ... talvez por sentir que se tinha perdido a essência do nosso Carnaval.
