seta

 

Emboma II


" ... vindo da Villa da Victoria de Masangano huns moradores por terra para esta Cidade de São Paulo da Assumpção, em o sitio do Bengo onde faz aquelle rio huma lagoa grande, a que chamão a Quilunda, se adiantou um deles da companhia dos mais, a que chamavão por sobrenome, o Cordeiro, o qual vinha como soldado conquistador, vestido com sua coira, que lhe chegava aos joelhos, e desta sorte o investio huma disformidavel emboma sem elle se poder valer de si e das armas que trazia assustado de tão repentino acomettimento, cingindoo logo pela cintura, e com o rabo buscando áquele homem as partes baixas com huma como unha que tem antes da ponta, o hia juntamente apertando para lhe esmiuçar os ossos; vendose aquelle desdichado em tamanha aflição, desamparado dos negros que com sigo levava, impetrou o favor divino, chamando pella Virgem da Conceição que lhe valesse em tamanha necessidade, e com tal prerogativa permittio lembrarlhe huma faca pequena que trazia, pois de outra arma se não podia valer; e puchando por ella a metteo por entre si, e a emboma, com o que ella por si com a força do aperto que fazia, se foi cortando, e lhe tinha a coira servido de reparo para o não poder offender com sua unhaaonde intentava; gritou tambem neste apertado sucesso pellos companheiros que vinham atraz, aos quais havião dado avizo os negros fugidos do sucedido a seu senhor;acudindo o acharão naquelle trabalho e aperto; e como a dita emboma estava já muito ferida da faca, se tinha esforsado aquelle trabalhado homem a lhe sogigar (subjugar) com ambas as mãos a cabeça, em a qual pegando os camaradas com toda a força, a pregarão em o chão com huma forte estaca de pau, e forão com aquelle desgraçado dando voltas ao redor, dezemvolvendoo das apertadas laçadas e ligaduras que aquela terrivel serpente lha havia dado; (...) estas cobras tão disformes, chamadas embomas, a toda a couza que cação, he seu costuma enroscaremse primeiro em o corpo, e hirem-no delindo e buscando com a unha as partes baixas, em que que devem ter todo o seu veneno: em galinhas e couzas pequenas pegão com a boca."


Estas duas fabulações ecoaram no nosso tempo com melhor ou menor estilo discursivo.
A acrescentar só mais duas fabulações que acompanharam o meu imaginário das emboma-gibóias: a de algumas serem tão grandes, que os caminhantes cansados não resistiam a tentação de se sentar em "tronco" tão apetecível; e a de atravessarem as estradas em salto, que as projectava para o lado oposto depois de se terem contraído e descontraído em movimento rápido e violento, deixando para trás só um silvo. A culpa foi do Cadornega.