As madres
... cento e quarenta e nove, ... cento e cinquenta, UFFF !!!...
Depois de ter apanhado umas galhetas, daquelas que punham o meu ouvido a zumbir e a minha alma a revoltar-se envergonhada, a segunda fase do castigo chegara ao fim: corrigira, pela tarde e noite adentro, à luz do candeeiro ou da vela quando a chaminé se quebrava com uma corrente de ar mais fria, cinco erros ortográficos cento e cinquenta vezes cada um. Sem erros, que eram triados pela minha mãe, não fosse o castigo redobrar no dia seguinte.
Exausto, ia-me deitar. Como me sabia bem a cama a seguir. Era mais relaxante do que se tivesse passado o dia inteiro a correr-saltar-pular.
Saí de casa e olhei para o quintal em frente onde cerca de uma vintena de goiabeiras se perfilavam e se preparavam para na altura própria me presentearem e deliciarem. Com aventura e com goiabas.
Ia todo aperaltado para mais um dia de aulas: cabelo grudado à cabeça por sabão, isso de brilhantina era para os caixeiros-viajantes e os calcinhas, que se cimentava rapidamente na consolidação de um risco feito e refeito pela minha mãe até estar rigorosamente direito; calções curtos que faziam moda no aproveitamento da roupa que já fora usada por outros; sapatos-botas cardadas daquelas feitas à medida com o lápis a fazer comichão quando torneava o pé; pasta de pano a tiracolo com os livros, cadernos, lápis e a minha caneta-não-de-tinta-permanente para dar uma de bangão intelectualizável; camisola vestida, porque o cacimbo é mesmo frio em Malanje; e uma bata exigida como que numa tentativa de camuflagem da minha condição de macho em colégio de madres.
Trinta metros andados, mal virava a esquina da casa de trânsito dos Caminhos de Ferro e desaparecia das vistas, feliz e felizmente tirava a bata e colocava-a pendurada na pasta de pano. Olhava logo e sempre, tipo reflexo condicionado, para o jambeiro que crescia na esquina do quintal, antes da mangueira, à procura dos beija-flores no seu esvoaçar parado e disparado quando mudavam de flor, sinal de que o cacimbo tinha acabado. Esperança vã, dissipada pelo nevoeiro matinal. O frio cortava, as lágrimas apareciam e corriam pela cara abaixo, conflituando com a glicerina que me protegia da secura do tempo. Convivência sábia e aparentemente contraditória: a humidade do nevoeiro e a secura do tempo. Agudizada pelos remoinhos que se levantavam misteriosamente e que, às vezes, me apanhavam e me fustigavam com areia. Nesse campo aberto que eu atravessava, entre as casas da minha rua e as casas da avenida da Cotonang em frente à Igreja, ficava a admirar as formigas-elefante, hoje sei o nome, cada uma em tocaia nas suas covas-cónicas armadilhadas. Se um insecto à sua escala escorregava, apareciam e vorazmente puxavam-no para debaixo da areia. Então, porque não me podia distrair muito com o tempo-relógio que se denunciava numa das torres da Igreja, com o dedo procurava a formiga-elefante e, encontrada, espalhava areia na palma da mão, aumentando a inoperância da glicerina, e nela colocava a formiga que logo procurava esconder-se, fazendo-me cócegas na mão e companhia enquanto caminhava maravilhado com as teias de aranha peroladas em humidade no capim, às vezes em gotinhas de gelo. Frio, lágrimas a escorrer pela cara abaixo, ardor do cieiro, formiga-elefante a cocegar, teias de aranha encantatórias eram lenitivo suficiente para me ir esquecendo da bata, que tinha de a assumir quando me aproximava do colégio. Mas só depois de atravessar a linha do caminho de ferro.
Mesmo pior só quando me elegeram actor para uma peça de teatro, de cujo nome não me recordo. Ensaiei com enorme esforço, pois era só depois das aulas terminarem. No dia da festa, paniquei quando me apercebi que me iam enfiar umas saias para (des)compor a personagem ... sem darem por isso, ladinamente, despi o traje ofensivo, esgueirei-me por uma porta, corri como um possesso até ao muro que separava as madres dos padres, transpus o muro, corri através daquelas áleas de mangueiras, fantasmagóricas, atravessei o pátio da Igreja, a linha do caminho de ferro, a avenida da cotonang e cheguei a casa. Consciente da missão cumprida. A minha mãe estranhou.
No dia seguinte, a medalha. Não sei quantas madres vieram "corrigir" o erro ... não ortográfico.
