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Relatório da Palanca Setembro/ Outubro 2009

 

 

Caros amigos,

 

PN Cangandala

 

Em resultado da bem sucedida operação de capturas, a rotina mudou consideravelmente na Cangandala, já que o nosso esforço é agora dirigido a manter os animais sob monitorização constante dentro da área vedada. Os pastores patrulham a vedação diariamente, assegurando-se que se mantém em boas condições e sem ser forçada pelos animais. A manutenção permanente dos bebedouros artificiais deixou de ser uma preocupação, já que a chuva tem aumentado de frequência e após as duas primeiras semanas de reclusão quando os animais beberam quase diariamente, acabaram depois por abandonar totalmente esta rotina. Chove agora quase dia sim, dia não, e os níveis de humidade são consideráveis.

 

As fêmeas não parecem tão gordas como estavam por altura das capturas, mas isto não é razão para preocupações, pois eventualmente estarão agora numa condição mais natural. O Pete Morkel achou-as particularmente gordas nessa altura, provavelmente o resultado de vários anos quase sem qualquer stress reprodutivo. Os animais apresentam a pelagem luzidia e pareceram alerta e saudáveis.

Mais importante ainda, e o que a maior parte das pessoas querem saber, o macho parece ser um competente líder. Está sempre próximo das fêmeas, liderando-as nas rotinas diárias, mas controlando a retaguarda e defendendo-as de intrusos. As fêmeas parecem submeter-se alegremente à sua dominância de uma forma natural. Estão apaixonadas, e não, não sei se já estão prenhas – teremos de esperar mais uns meses para saber!

 

A aproximação à manada com 4X4 é agora possível, localizando-as através do sinal rádio VHF emitido pelas coleiras em alguns dos animais. Contudo, e considerando a densidade da vegetação na área, as distâncias mínimas e máximas para as observações são geralmente entre os 100 e 150mt de distância, tornando estas observações feitas com pouca luz e com dificuldade para identificar e registar os indivíduos. Apesar de tudo, após várias visitas e dias de aproximações e observações consecutivas, temos conseguido tornar os animais progressivamente mais acostumados à nossa presença, chegando por vezes a permitir observações por mais de uma hora (Fotos 01, 02, 03, 04, 05, 06).

 

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O que se tornou evidente observando o seu comportamento, foi a vulnerabilidade dos machos perante a caça furtiva, ficando mais fácil de compreender (muito embora já o suspeitássemos) como chegámos a esta situação desesperada, com apenas um grupo de fêmeas e nenhum macho disponível. Não significa que os caçadores furtivos tenham procurado preferencialmente machos, mas também não foi uma questão de sorte – acontece que eles são mais facilmente abatidos! De facto a sua figura negra sobressai bastante na mata densa, e a maior parte das vezes que nos aproximamos da manada é o macho que vemos primeiro. Para além disso, ele tende a patrulhar a área ao redor da manada. E o que é pior, quando a manada se sente inquieta ou suspeita de algo, a manada afasta-se mas o macho fica para trás e por vezes avança e enfrenta o intruso, desafiando o potencial predador. Isto aconteceu-nos algumas vezes quando nos aproximámos da manada. É seguramente o que tornou mais pronunciada a mortalidade dos machos perante os furtivos, levando a que uma manada isolada de palancas ficasse sem machos.

 

As câmaras ocultas localizadas nas velhas Salinas não produziram quaisquer fotos de palancas negras ou híbridos, mas isto não foi surpresa. Tínhamos esperança de obter algumas fotos dos híbridos, já que não esperamos ter mais palancas negras puras na Cangandala. Em vez disso, obtivemos apenas fotos de palancas vermelhas e os mamíferos habituais, tais como golungos, bambis, facocheros e porcos-espinho.

Em resultado das capturas e confinamento de todas as fêmeas puras (e mais velhas) da manada, as implicações sociais devem ter sido consideráveis, pelo que será interessante determinar se os híbridos se tornaram a juntar. Numa ocasião aproximámo-nos das duas híbridas que possuem coleiras de VHF, seguindo-as a pé, e pelo menos estas duas estavam juntas.

 

Em Outubro fizemos mais uma visita à reserva do Luando (Foto 07), o que mais uma vez foi um desafio logístico mas foi também uma viagem extremamente excitante, mesmo se produzindo resultados modestos em termos de registos de palancas negras.

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Conduzimos 400km com as motos 4x4 dentro da reserva, a maior parte do tempo a corta-mato e navegando com GPS. Isto levou-nos através de paisagens magníficas, e acampámos em locais extremamente remotos (Fotos 08, 09, 10, 11). Provavelmente o ponto alto da expedição foi termos atravessado várias linhas de água de grande beleza onde surpreendemos pequenos grupos de nunces que corriam à frente das motos 4X4 com o seu correr tipicamente ondulante.

 

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A área onde tínhamos localizado a manada de palancas negras há algum tempo atrás é agora logicamente o nosso principal foco e está a ser monitorizada regularmente. Este grupo de animais do Luando é aparentemente o último e principal núcleo desta subespécie, e justifica total e incondicional protecção. A segurança é assunto sério, e temos vindo a colocar no terreno os elementos necessários para poder assegurar que os animais não serão ameaçados por caçadores furtivos ou outros. Os pastores locais estão motivados e temos vindo a incluir as autoridades civis e tradicionais, polícia e militares numa rede especificamente dirigida a proteger a principal manada de palancas.

 

Tão importante como defender o último grupo de palancas negras conhecido em liberdade, é tentar encontrar uma nova manada. Se houver outros grupos sobreviventes nalgum local da reserva teremos de encontrá-los antes que seja tarde demais. Claro que nesta altura já temos uma boa ideia das áreas onde será mais ou menos provável virmos a encontrar palancas, e temos 14 câmaras ocultas a monitorizar diferentes salinas e hotspots. Apesar deste esforço, os resultados foram decepcionantes. O facto das câmaras estarem distribuídas por mais de 200km em localizações remotas e selvagens, torna quase impossível a sua manutenção permanente no terreno. Por causa disto, algumas câmaras tem vindo a funcionar em sub-rendimento por várias razões, desde má colocação das câmaras a falhas de baterias, etc.

 

Uma câmara colocada na área onde temos localizada a manada das palancas negras, produziu apenas algumas fotos de um belo macho (Foto 12), mais algumas fotos de palancas vermelhas. Isto não foi uma surpresa e foi gratificante obter pela primeira vez fotos de um macho adulto, após anos na Cangandala com apenas fêmeas, crias e… híbridos. As câmaras restantes espalhadas por toda a reserva apenas produziram palancas vermelhas, em dez ocasiões e seis locais distintos (Fotos 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21).

 

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Isto foi bastante frustrante. A não ser que exista alguma razão desconhecida pela qual as palancas negras no Luando estejam menos dependentes da presença de salinas, teremos de aceitar que a sua população foi quase totalmente eliminada ao passo que as palancas vermelhas de alguma forma resistiram melhor à pressão do furtivismo.

 

Cumprimentos

 

Pedro

 

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