Relatório de Outubro de 2008
Caros amigos,
Em Outubro fizemos apenas uma curta viagem ao PN da Cangandala. Foi essencialmente uma visita de rotina para monitorar as câmaras ocultas e supervisionar o trabalho dos pastores, em preparação para os próximos dois meses, nos quais esperamos intensificar as nossas acções de campo. A chuva tinha vindo a intensificar-se como esperado, mas o tempo manteve-se misericordiosamente seco durante a nossa estadia. Apesar de tudo as picadas estavam já lamacentas e mesmo antes de entrarmos no parque tivemos de resgatar um 4x4 (Foto 01) pertença da empresa que presta serviço na construção da torre de comunicações. Pequenas poças e charcos eram facilmente encontrados, particularmente nas Salinas (Foto 02).
Chegados ao parque, esperava-nos algumas novidades de diversa natureza. Primeiramente, ficámos satisfeitos por verificar que a estrutura física com 40 metros da torre de comunicações estava finalmente finalizada (Foto 03). Aguarda-se agora apenas a chegada das equipas técnicas para instalar os painéis solares e a distribuidora que irá transmitir o sinal de telefonia móvel da UNITEL por grande parte do parque. Isto permitir-nos-á acompanhar as movimentações dos animais, tão pronto tenhamos conseguido capturar e equipar com coleiras transmissoras, as primeiras palancas. Para mais, poderemos agora instalar uma repetidora VHF para assegurar comunicações de rádio em toda a extensão do parque. Isto irá certamente melhorar a moral dos pastores e a sua eficiência no desempenho das operações anti-furtivo!
Apesar disto a nossa boa disposição não duraria muito, já que os pastores nos reportaram um perturbante incidente decorrente de um encontro com caçadores furtivos na semana anterior. Estando em patrulha na zona noroeste do parque (usualmente a área mais exposta aos caçadores furtivos e onde ambas as espécies de palanca foram já completamente exterminadas), os pastores depararam-se com três caçadores furtivos. Um procurava imitar o som de uma cria de antílope enquanto os outros dois aguardavam armados com AK-47. Após os caçadores se aperceberem de que tinham sido descobertos, deu-se uma curta perseguição com uma intensa troca de tiros. Eventualmente os intrusos acabaram por escapar, mas não sem que um deles tenha caído e largado a sua arma no chão, que foi imediatamente recuperada pelos pastores (Foto 04).Uma observação mais detalhada permitiu verificar que a arma tinha sido atingida por duas balas; uma perfurou o carregador (Foto 05) e a outra partiu o fuste de madeira.
É pouco provável que o furtivo tenha conseguido escapar incólume, e confirmando esta suspeita foram encontradas algumas gotas de sangue na coronha artesanal de madeira. Nós sabíamos que algum dia este tipo de confronto poderia ocorrer, e felizmente foi o caçador a vítima. Esperamos que este incidente transmita uma forte mensagem de que os pastores da palanca estão empenhados!
Uns dias antes e numa operação de rotina numa zona próxima da salina S1, os pastores encontraram um esqueleto de palanca negra. Como prova, os pastores trouxeram o crânio, apresentando ainda um corno (Foto 06). Observando o crânio, comprimento e estrutura do corno, podemos afirmar que o infeliz animal era uma fêmea adulta de palanca negra gigante. Os dentes estavam já bem gastos (Foto 07)
mas este indivíduo encontrar-se-ia no seu auge, ainda aquém dos dez anos de idade. Não é fácil determinar quando teria morrido e há quanto tempo estaria naquele local. O meu primeiro impulso é de lhe dar 1-2 anos, mas já me surpreendi várias vezes com a velocidade com que o processo de decomposição se desenrola nesta região, possivelmente beneficiando das chuvas generosas. Por exemplo, quando um chacal morreu junto da S8 no ano passado, em três meses apenas já todos os ossos tinham desaparecido completamente (com a excepção do crânio que resgatei). De relembrar também que tínhamos observado abutres pairando sobre esta zona no mês de Março, pelo que não posso deixar de pensar que poderá bem ser mais do que uma simples coincidência. Obteremos mais detalhes no próximo mês, quando deveremos uma espécie de investigação à "cena do crime" no local. Até lá, nada podemos adiantar em relação à causa provável de morte…
As câmaras ocultas neste mês desiludiram bastante, mas também nos reservaram uma surpresa. Na S2 e pela primeira vez em muitos meses, não tivemos qualquer indício de palanca negra, apenas os habituais golungos (Foto 08), bambis (ou ambos – Foto 09) e facocheros (Fotos 10, 11).
Na S4B, tal como no mês passado registámos mais uma vez a presença das três crias de palanca vermelha (Fotos 12, 13 )
e mais uma vez sem que se vislumbrassem os adultos. Finalmente na S3C também não obtivemos qualquer palanca negra ou sequer híbridos.
O primeiro a ser fotografado foi o nosso velho conhecido macho territorial de palancavermelha (Foto 14),mas depois e surpreendentemente, obtivemos duas sequências de um pequeno grupo de palancas vermelhas!
Composto de uma fêmea adulta e três crias, sendo uma delas de muito tenra idade (Fotos 15,16,17,18).
Estes animais nunca tinham sido registados e suspeitamos que se tratam de recém-chegados, tendo entrado recentemente a partir de áreas vizinhas. Pelo menos tendo fêmeas de palanca vermelha presentes poderá servir para manter o macho territorial mais preocupado com a sua própria espécie, e menos tentado a meter-se com as nossas fêmeas de palanca negra…
No próximo mês tentaremos mais uma vez capturar a primeira palanca na Cangandala. O tempo começa a esgotar-se, e temos de conseguir lidar com esta crise dos híbridos o mais cedo possível.
Esperemos ter melhor sorte desta vez.
Cumprimentos,
Pedro
