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Relatório de Novembro de 2008

 

Caros amigos,

Novembro foi altura de fazermos mais uma tentativa para capturar a primeira palanca e marcá-la com uma coleira GPS. Mais uma vez tivemos Peter Morkel connosco a coordenar todos os procedimentos veterinários. O Jeremy Andersen também se juntou a nós para fazer uma avaliação das necessidades do parque em termos de gestão e construção futura de vedações. O Nito Rocha e o Miguel Gullander completaram o grupo. Ficámos por 10 dias no parque da Cangandala, ao longo dos quais fizemos todos os possíveis para imobilizar a primeira palanca. As chuvas tinham sido generosas até ao momento, permitindo o ressurgimento anual dos cogumelos (Fotos 01, 02),

                  n01 n02

e os primeiros dias foram bastante molhados e lamacentos, mas nos dias derradeiros a chuva parou completamente e a terra secou rapidamente. Foi-nos possível conduzir por todo o parque, mas à justa.

Apesar do nosso esforço, e especialmente do Pete, mais uma vez as palancas demonstraram ser demasiado esguias e imprevisíveis e falhámos novamente. Afinal de contas, estes são os últimos animais sobreviventes de uma linhagem encurralada, sujeita a largos anos de caça furtiva intensa e impiedosa. Os primeiros dias foram consumidos a tentar localizar a manada de palancas/híbridos, enviando equipas de pastores em diversas direcções. Uma vez isto conseguido, passámos então 6 dias consecutivos na perseguição da manada, sempre em cima do rasto mais ou menos fresco. Todas as manhãs começávamos por retomar o rasto da véspera (Foto 03)

n03e caminhar nele todo o dia, por vezes mas não sempre com uma breve interrupção para lanchar. Todos os dias a principal componente da equipa como grupo de "assalto", era constituído pelo Pete Morkel e um ou dois dos melhores pastores pisteiros. A equipa de apoio era constituída por mim, o Miguel e mais dois pastores. A equipa de apoio completou algumas das caminhadas realizadas, mas frequentemente ficámos ou voltámos para trás para assegurar que as viaturas seriam colocadas em local estratégico no final do dia. As comunicações foram asseguradas com telefone satélite, e também conseguíamos localizar o grupo de assalto à distância através do sinal VHF da coleira que transportavam. O plano era assegurar que sempre que chegávamos a um rasto muito fresco, apenas o Pete e um dos pisteiros continuavam. A determinada altura também experimentámos reproduzir uma gravação com o chamamento de cria de palanca gravado na África do Sul, mas acabámos por desistir já que não tínhamos a certeza se estávamos a despertar a curiosidade das palancas ou simplesmente a alertá-las da nossa presença… esta poderá ser uma ferramenta interessante e certamente que justifica mais algumas experiências.

A caminhada diária foi em média superior a 20km, geralmente seguindo uma linha de progressão bastante tortuosa, frequentemente zig-zagueando e até chegando a forçar-nos a cruzar a nossa passagem anterior e numa ocasião fazendo um perfeito "8". O facto de que a manada se movia tanto, de uma forma tão imprevisível, e aliado a ventos frustrantemente inconstantes, tornou a aproximação final aos animais quase impossível sem os alertar da nossa presença. A melhor chance talvez tenha sido no primeiro dia de caminhada a sério quando à hora de maior calor chegámos muito próximo do local onde descansavam à sombra. Já estávamos no rasto há algumas boas horas e sabíamos que estávamos cada vez mais "em cima delas", mas mesmo assim acabámos por subestimar quão próximo estávamos. Quando os pastores viram os animais no descanso, tudo se precipitou muito depressa, e enquanto o Pete tentava a aproximação, a coberto de grandes morros de salalé (termiteiras), uma brusca mudança da brisa deitou tudo a perder e a manada desapareceu em segundos. Nos primeiros dois dias de caminhada séria, as chuvas ocasionais mantiveram o solo bem húmido e seguir os rastos era assim mais fácil. À medida que as caminhadas progrediram sem chuva, os rastos começaram a ser progressivamente mais difíceis de seguir e as palancas passaram a deslocar-se por distâncias maiores, tornando bastante complicado manter o ritmo de perseguição diário. Em resultado disto, o Pete viu as palancas em quatro ocasiões nos primeiros dois dias de "tracking", mas não nos dias subsequentes. Eu tive uma observação fugaz no primeiro dia, mas um encontro inesperado estava-nos ainda reservado para o quarto dia.

No quarto dia de caminhada, e depois de uma breve pausa para comer, deixámos a equipa de assalto para retomar a perseguição, e decidimos levar os LandCruisers para um outro local. Parámos as viaturas junto de uma anhara já que parecia um bom lugar, com boa visibilidade, para esperar e acompanhar a equipa. Bem, pouco depois de sairmos do carro, tínhamos um grupo de 5 a 6 palancas, correndo à nossa frente a não mais de 100 metros de distância entre as árvores. Os cornos e contorno característico foram perfeitamente visíveis e pelo menos as últimas duas pareceram-me claramente ser fêmeas puras. Não se tratou de uma primeira vez para mim ou para o Bebeca, e muito menos para os pastores, mas o Miguel mal conseguia acreditar no que tinha visto… já que por essa altura ele já tinha interiorizado que as chances de chegar a ver uma palanca na sua primeira viagem eram pouco mais do que zero! O Jeremy não teve tanta sorte porque foi demasiado lento a contornar o lado do LandCruiser onde se encontrava, e o Nito já tinha voltado na véspera para Luanda – já veio à Cangandala mais que uma mão cheia de vezes e nunca conseguiu ver uma palanca!
Mais tarde determinámos que as palancas estariam calmamente a observar-nos quando passámos nos carros a menos de 40 metros, e só decidiram fugir quando estacionámos e saímos das viaturas!

Se nada mais, esta operação ensinou-nos muito sobre o comportamento das palancas na Cangandala, e tornou-se evidente que elas se deslocam bastante dentro da sua área vital (o espaço utilizado pela manada). Pudemos não apenas confirmar a área vital que já suspeitávamos, mas inclusivamente estendê-la ligeiramente no seu limite sudoeste. No total a manada de palancas parece ocupar uma área de cerca de 10.000 hectares. De certa forma surpreendente foi verificar que pelo menos parte dos animais percorreram todo o território em menos de uma semana.
Analisando o registo fotográfico das câmaras ocultas também descobrimos que no terceiro dia de perseguição, a manada se dividiu em dois subgrupos, e enquanto nós seguíamos no rasto de um, o outro grupo tomou uma direcção diferente e acabou por entrar na salina 3C (Foto 04) – menos de 24 horas depois de nós lá termos passado pela segunda vez para inspeccionar o local! Este subgrupo incluiu a maior parte dos híbridos e o membro mais jovem – uma jovem cria híbrida nascida este ano por volta de Agosto. Ela não tinha ficado ainda registada porque provavelmente seria demasiado jovem para acompanhar a manada. Isto nem foi totalmente inesperado nem boas notícias (Foto 05).

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As Salinas produziram centenas de fotos de boa qualidade, particularmente da manada mista de palancas e híbridos (Fotos 06, 07).

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No total podemos claramente identificar pelo menos 10 indivíduos, seis deles sendo híbridos, e apenas quatro fêmeas puras adultas (Fotos 08, 09).

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Em termos de outras espécies, obtivemos fotos de palancas vermelhas (Fotos 10, 11) e também de uma bela manada de quissemas (Foto 12), que incluiu um magnífico macho (Foto 13).

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    n12  n13

O restante foram fotos dos clientes habituais, tais como golungos (Fotos 14, 15, 16), facocheros (Fotos 17, 18), bambi (Foto 19) ou porco-espinho (Foto 20).

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Outro aspecto positivo das intensas caminhadas, foi termos encontrado 7 (!) novas salinas, desta forma confirmando que devem existir ainda dezenas de salinas por descobrir. Duas câmaras foram deslocadas para novas salinas.

Antes de sairmos do parque recebemos ainda notícias bastante perturbadoras, em resultado de relatos que se espalharam entre as populações locais como fogo no capim. Enquanto estávamos no parque, dois caçadores furtivos entraram no norte do parque junto de Culamagia (como habitualmente, a zona mais severamente atingida pela caça furtiva), e de alguma forma um dos caçadores conseguiu atingir com um tiro de uma carabina Mauser, o seu colega tomando-o por um antílope! O infeliz furtivo atingido foi então transportado para o Hospital Municipal da Cangandala e de seguida evacuado para Malanje dada a gravidade dos ferimentos (a bala entrou-lhe pelas costas e acabou alojada na coxa). Isto não poderia passar despercebido, e o atirador foi imediatamente preso (receio que mais por ter acertado em alguém que por estar a caçar dentro do parque da palanca). Contudo, esta estória ficaria ainda mais picante, de acordo com o que os pastores apuraram e o Bebeca mais tarde confirmou em entrevista ao furtivo ferido. Parece então que foi o comandante da polícia da comuna de Culamagia, quem forneceu primeiro uma AK-47 aos caçadores para irem buscar "carne fresca" ao parque. Aparentemente esta arma não funcionou bem, e os caçadores acabaram por voltar ao chefe Vidal que lhes trocou desta feita a arma por uma carabina Mauser. Esta situação é tão mais séria porque as armas tinham sido recentemente confiscadas às populações numa medida louvável, ainda a decorrer, das autoridades para desarmar a população civil em todo o país.
As últimas notícias vindas de Malanje davam conta que o chefe Vidal tinha tido um acidente de moto, e depois estava desaparecido… esperamos que um exemplo possa resultar deste incidente, mas ainda receio que tudo seja abafado.

Cumprimentos,

Pedro