Relatório Março/ Abril de 2009
Caros amigos,
Após um começo hesitante, este a época da chuva continuou em crescendo e acabou em grande, pelo menos na província de Malanje. De tal forma, que durante Março e Abril não foi possível entrar no parque da Cangandala com uma viatura 4x4. Muito embora a região conte com uma precipitação média anual na ordem dos 1.400 mm, esta tende a ser relativamente bem absorvida pelos solos maioritariamente arenosos. O problema resume-se a negociar a passagem de rios e baixas alagadiças, principalmente em anos chuvosos como este 2009. Em resultado disto, e pela primeira vez nos últimos cinco anos, pura e simplesmente não conseguimos atravessar a planície alagadiça do Rio Maúbe.
Suponho que isto levará a uma boa e abundante produção de capim, e a uma generosa disponibilidade de água por um período mais longo que o habitual, o que será positivo para a fauna. Mesmo assim, foi de certa forma uma desilusão para nós, não podendo entrar no parque, já para não falar que por causa da operação de capturas programada para o cacimbo preferiríamos ter os animais concentrados numa pequena área, e não dispersos por várias zonas de boa pastagem. No final de contas, teremos mais variáveis para gerir.
Se a Cangandala estava for a de alcance, bem podemos imaginar a situação na reserva do Luando como muito pior. De facto, pessoas provenientes desta última área referiram que a planície aluvial do Luando estava totalmente inundada por uma secção de cerca de 5km no principal local de travessia, onde os locais levavam agora várias horas para conseguir atravessar para a outra margem numa canoa rudimentar! Até a nossa jangada tinha agora desaparecido sob as águas. Mesmo assim, conseguimos recolher através do administrador comunal de Quimbango, todos os cartões em uso nas câmaras ocultas desde Dezembro. Tínhamos 7 câmaras montadas nas salinas naturais, e espalhadas por mais de 100km de mata, e os pastores tinham sido instruídos para controlar as baterias e substituir os cartões de memória regularmente.
A primeira desilusão foi verificar que as baterias externas não tinham funcionado bem, tendo durado apenas cerca de dois meses em média, e isto quando esperávamos 4 meses de vida útil. Comparando com os 45 dias que obtemos com pilhas alcalinas comerciais tipo C, não se trata de grande melhoria. E para já decidimos reverter às pilhas alcalinas, que foram enviadas para a reserva.
Tínhamos grandes esperanças de conseguirmos as nossas primeiras fotos de palanca negra no Luando, mas não, não poderia ser tão fácil, não com a palanca negra gigante… esta criatura misteriosa parece ser sempre mais esguia que o esperado, como que mantendo as distâncias… e assim ainda não foi desta, mas havemos de conseguir mais cedo ou mais tarde!
O resultado mais irritante foi que, enquanto não localizámos palancas negras, mais uma vez obtivemos fotos das suas primas as palancas vermelhas (ou ruanas). As fotos revelaram dois novos grupos de palanca vermelha, bastante afastados entre si, e do local do primeiro grupo registado em Dezembro.


Uma das sequências revelou belos grandes planos de uma fêmea lactante, evidente pelos mamilos inchados e rosados (Foto 01); a segunda sequência permitiu-nos identificar 4 animais jovens, incluindo duas crias fêmeas (Foto 02), uma fêmea jovem de um ano e um macho jovem com cerca de dois anos (Foto 03). Devo dizer que três registos independentes e consecutivos de palanca vermelha contra zero de palanca negra, é perturbador e de todo inesperado. Foi sempre assumido que a população de palanca negra no Luando, deveria ser comparável ou mais numerosa que a de palanca vermelha… Claro que uma amostra de 3 é ridiculamente curta para nos permitir quaisquer conclusões, mas mais uma vez, é difícil não deixar de pensar se estaremos apenas a ser azarados ou haverá mais qualquer coisa? Ao longo dos próximos meses certamente iremos reunir muito mais informação acerca desta questão.
Em relação ao restante, pelo menos obtivemos algumas interessantes e por vezes inesperadas sequências de outros animais, incluindo espécies que ainda não tínhamos fotografado. Tivemos fotos de clientes habituais como os facocheros (um macho de respeito nas fotos 04 e 05), e bambi comum (uma fêmea foi captada numa sequência cómica em que depois de ter trepado para cima do morro de salalé hesitou por muito tempo antes de conseguir descer novamente – Foto 06).



Algumas fotos mais de porco-espinho (Foto 07) e de um grupo de macacos cinzentos (Foto 08) e que, nalgumas fotos, são vistos claramente a comer solo directamente do morro (esta foi a nossa primeira evidência de que os macacos também se alimentam de solo das salinas).


Na salina localizada na área de floresta mais densa, ainda não foi desta que fotografámos pacassas (búfalos da floresta), mas obtivemos muitas de javali africano (potamochero) (Fotos 09 e 10)

e, pela primeira vez, de chicuma (Fotos 11, 12, 13, 14). Esta criatura fugidia, uma gigantesca seixa do tamanho de um golungo, raramente é avistada, muito menos fotografada, pelo que ficámos muito satisfeitos por conseguir registá-la. Uma das sequências (Foto 12) até revela uma mãe visitando o local acompanhada por uma jovem cria (canto inferior direito da foto).



Também merecedor de referência foram algumas sequências e visitantes inesperados tais como grupos de morcegos frugíveros comendo solo nas paredes do morro de salalé (Foto 15). Já tínhamos fotografado morcegos antes, mas nunca “apanhados com a boca na botija”.

Também interessante foi observar bandos ocasionais de aves, principalmente granívoras, tais como estes canários de fronte amarela (bigodinhos) (Foto 16), que pousavam insistentemente nas paredes do morro, indicação de que também comerão solo, como todos os demais.

A visita surpresa foi um pequeno mangusso vermelho (Fotos 17 e 18), muito embora quase seguramente estivesse em busca de presa, ou apenas a explorar a área. Mesmo assim, este foi o nosso primeiro predador! Talvez não o mais impressionante ou o maior dos carnívoros, mas definitivamente um dos mais bem sucedidos e corajosos membros da nossa fauna predatória!


Os próximos meses serão bem atarefados e poderão ser igualmente decisivos para o futuro dos nossos esforços de conservação.
Cumprimentos,
Pedro
