P. N. Cangandala e Reserva Integral do Luando
Caros amigos,
Em Junho fizemos um par de viagens à Cangandala e uma expedição ao Luando. Era tempo de recuperar o tempo perdido na época chuvosa. Em ambas as reservas as queimadas sazonais incendiaram a savana (Fotos 01, 02) mas, especialmente na Cangandala, com algum atraso comparado com anos anteriores, certamente resultado das chuvas tardias que mantiveram o capim húmido durante Maio e início de Junho.
PN da Cangandala
Na Cangandala finalizámos a vedação com 2X2 Km (Foto 03) e que delimitará o santuário para reprodução das palancas.
A ideia é capturarmos e colocarmos dentro da vedação as últimas fêmeas puras sobreviventes que ainda ocorrem neste parque e desta forma separando-as dos machos intrusos. Logicamente será então necessário encontrar e capturar um macho puro para juntar ao grupo. Tudo isto será tentado em Julho e Agosto numa muito ambiciosa operação de capturas, que será pioneira em Angola e que esperamos venha a constituir um marco no resgate da palanca negra gigante perante a actual extinção iminente.
As câmaras na Cangandala continuaram a produzir milhares de fotos, e como habitualmente sem grandes surpresas. Quanto muito, a palanca vermelha parece agora ser mais frequente nas salinas comparado com as palancas negras, mas isto não é inesperado e reflecte o actual contraste na fertilidade de ambas as espécies na Cangandala. As manadas de palancas vermelhas parecem saudáveis e a aumentar, ao passo que as palancas negras estão geneticamente poluídas e a desaparecer.
A maior parte dos Hippotragus fotografados eram indivíduos bem conhecidos, mas algumas das fotos foram bem tiradas, incluindo muitas de golungo (Fotos 04, 05) e bambi (Fotos 06, 07),
e algumas de palanca vermelha (Fotos 08, 09, 10, 11, 12)


e os habituais híbridos (Fotos 13, 14, 15, 16, 17, 18).
Particularmente interessante foi uma sequência mostrando uma das mais velhas fêmeas puras de palanca negra a chegar hesitantemente a uma salina, antes de encorajar a chegada da sua filha híbridos de dois anos (Fotos, 16, 19, 20, 21).
A meio de Junho o novo Governador de Malanje visitou o parquet pela primeira vez, e as câmaras registaram a presença da delegação na salina 2 (Foto 22).
Apesar de todo o movimento e distúrbio causado, os animais cedo voltaram a utilizar o local e um par de semanas depois registámos lá uma das fêmeas puras de palanca negra (Foto 23).
RI do Luando
Mal podia esperar para voltar à Reserva Integral do Luando, depois de meses de isolamento devido à época chuvosa durante a qual as inundações nos mantiveram sem hipótese de atravessar o Luando. Preparámos uma expedição de uma semana, e com o objectivo de atingir e explorar novas regiões na reserva. Pretendíamos chegar às áreas mais a sul, bem dentro da região do Mulundo, mas também, e principalmente, atingir a secção norte pela primeira vez, de onde bastantes relatos inconclusivos prometiam que pudéssemos aí encontrar pelo menos uma manada de palanca negra. Esperavam-nos mais 300 km de off-road com as motos 4x4.
Nos primeiros dois dias fizemos a revisão às motos 4x4 em Quimbango e reunimos os 15 pastores da zona centro-sul da reserva. Os cartões de memória dos últimos meses de todas as câmaras da reserva tinham sido recolhidos por eles e trazidos para serem descarregados e substituídos. Tinham sido localizadas entretanto algumas salinas novas e movimentadas câmaras para os novos locais. Escusado dizer que tínhamos grandes esperanças de finalmente obter as primeiras fotos de palanca negra do Luando, apesar de cautelosos, dadas as desilusões anteriores. A época também não tinha sido a ideal, já que os últimos meses coincidiram com o máximo crescimento da vegetação, desta forma com tendência a interferir com a perfomance das câmaras (o capim longo tende a enganar os sensores das câmaras fazendo-a disparar repetidamente desperdiçando fotos e registando sobretudo fotos “em branco”. E o facto das câmaras terem ficado por tanto tempo sem supervisão só piorou as coisas.
Em resultado disto, as 8 câmaras produziram milhares de fotos “em branco” e pouco mais. A excepção foram algumas fotos de porco-espinho, golungo, potamochero (javali africano) (Foto 24)
e… mais palancas vermelhas (Fotos 25, 26, 27) em três novas ocasiões.
Frustrantemente o único tipo de Hippotragus que continuamos a registar é a palanca vermelha, em vez de palanca negra. Somos agora forçados a reconhecer que isto dificilmente será uma coincidência, e requere-se uma explicação apropriada. Uma possibilidade é termos vindo a concentrar os nossos esforços em áreas mais propícias à palanca vermelha, mas tal seria bem contra os registos históricos; outra alternativa seria considerar que, pelo menos nesta região, as palancas negras necessitam ou procuram menos as salinas naturais comparadas com as palancas vermelhas, mas mais uma vez e até agora os nossos dados numerosos e detalhados acumulados na Cangandala não sugerem qualquer diferença na utilização entre estas espécies; uma terceira explicação que não podemos ignorar, é que as palancas vermelhas podem simplesmente ser mais resistentes quando sujeitas à caça, e ao longo dos últimos vinte anos podem ter suportado muito melhor a enorme pressão de furtivismo, ao ponto de agora superarem largamente em número as palancas negras. Se o último cenário se confirmar, a situação poderá ser muito pior que o antecipado, e a população de palanca negra podem muito bem estar encurralada nalgumas bolsas isoladas. Torna-se necessário um programa de censo extensivo a toda a reserva, de preferência baseado em métodos não invasivos (tais como recorrendo à análise do DNA mitocondrial em fezes para diferenciar as espécies), mas alguns detalhes técnicos ainda terão de ser solucionados.
Por outro lado, a exploração da secção norte da reserva trouxe-nos renovadas esperanças. Encontrámo-nos pela primeira vez com os pastores desta área, e dois deles mostraram ser provavelmente os nossos melhores elementos. Um deles, Manuel Sacaia (Foto 29), quando rapaz, trabalhou como cozinheiro para Richard Estes em Quimbango em 1970, antes de se tornar fiscal.
Ao contrário da maioria dos nossos homens em ambas as reservas, pareceram bastante experientes e à vontade na hora de diferenciar as espécies de palancas. Mais importante ainda, tinham já localizado uma numerosa manada de palanca negra no ano passado, e tinham inclusivamente depois conseguido mostrar os animais a outras pessoas que o confirmaram. Este ano, ainda não tinham visto os animais, mas continuavam a monitorar a área e a registar os movimentos dos animais baseados nos rastos. Fizeram uma queimada controlada no início de Maio na anhara mais prometedora, e nós visitámos o local e lá montámos acampamento. Observámos sinais e rastos de Hippotragus com uma semana, e acabámos por montar uma câmara numa salina, contudo com sinais de apenas uso moderado. Esta será a nossa nova área prioritária. Até porque a sua relativa proximidade à Cangandala, poderá permitir a translocação de um macho no futuro, e caso uma manada seja localizada.
Estes pastores também se revelaram uma importante fonte de informação para nos ajudar a compreender a trágica história do Luando ao longo das últimas duas décadas. Quando no início dos anos oitenta a Unita ocupou a região que incluía a reserva do Luando, o Manuel Sacaia como fiscal do governo foi preso, mas acabou por conseguir escapar dos seus captores passando semanas fugido na mata e atravessando a nado o rio Luando antes de atingir um local seguro. Ao longo dos anos ele foi mantendo-se bem informado e voltou definitivamente assim que a guerra terminou. Ele descreveu-nos o cenário perturbador que se verificou durante a guerra. Apesar do comando da Unita baixar instruções para não matar a palanca negra gigante, estas indicações eram pobremente acatadas no terreno e tiveram pouco ou nenhum efeito. Mais ainda, o procedimento de rotina era ter caçadores profissionais recrutados junto das populações, com a única função de realizarem caça permanentemente para abastecer as tropas aquarteladas nos campos militares com carne fresca e seca. Estes caçadores terão abatido tudo o que se movia dentro do seu alcance, e sem distinção de espécies. Isto rapidamente levou quase desaparecimento total de hipopótamos e songues no rio Luando, ao passo que espécies como a gunga, o puku e grandes predadores foram levados á extinção definitiva. Todas as outras espécies de antílope sofreram reduções drásticas, e a palanca negra não foi excepção. Como tudo o resto, eram apenas carne em cascos… esperamos ainda ir a tempo de reverter esta situação.
Cumprimentos,
Pedro
