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Relatório de Dezembro 2008

Caros amigos,

Antes do final de 2008 tínhamos ainda de regressar à Reserva do Luando. À medida que a época das chuvas progride, as vias de acesso tornam-se cada vez mais precárias, e em breve a região ficará inalcançável por meios convencionais (por terra). Levei o Miguel Gullander, o Bebeca e três pastores do Luando que tinham acabado de completar um programa de formação organizado pela GTZ no Parque da Kissama. Tal como em ocasiões anteriores, acampámos a primeira noite junto da ponte partida do Rio Luando, onde deixámos o LandCruiser.

A região tinha testemunhado pouca chuva desde a semana anterior, mas o Rio Luando já tinha subido consideravelmente, e a corrente estava a ganhar velocidade a um ritmo constante, comparando com a nossa última visita. A nossa jangada ainda estava operacional, muito embora a corda principal que liga ambas as margens estivesse agora semi-submergida sob as águas barrentas do rio. Carregámos a jangada com a maior parte do nosso material e que incluía todo o equipamento "hi-tech", e saltei dentro com o Miguel e o Nicolau, o nosso pastor do Camitungo. Claramente subestimámos a força da corrente e o facto de a corda estar bloqueada a meio da travessia num aglomerado de ramos de árvores. Também nos esquecemos de atar uma corda de segurança, e a combinação destes factores resultou em perdermos momentaneamente o contacto com a corda mestra, e fomos desamparadamente à deriva rio abaixo, tentando manter a preciosa carga a bordo e seca! Não foi o início que esperávamos… Utilizámos então as mãos e uma catana (quem diria) para lentamente conseguirmos remar (Foto 01) até à outra margem, 300 mt mais abaixo.

01dez

O exercício atrasou-nos algumas horas, mas não houve danos de monta e acabámos por continuar como planeado. Atravessámos então a planície alagadiça do Luando e apanhámos as duas moto-4 diesel em Capunda. Os nossos pastores baseados em Capunda esperavam-nos apenas com vagas informações acerca de movimentos dos animais na zona, e não tinham ainda conseguido localizar salinas, pelo que decidimos continuar para sul.
Em resultado de alguns dias consecutivos sem chuva nestes solos bem drenados, conduzir as motas foi bastante mais fácil que esperávamos (Foto 02), 02dezespecialmente considerando que estávamos em Dezembro. Isto permitiu que progredíssemos rapidamente, mas confesso que fiquei um pouco desapontado. Nada de vales inundados, troços lamacentos, sem necessidade de utilização de técnicas 4x4, em resumo sem descarga de adrenalina… Nem sei quando poderemos realmente colocar à prova estas máquinas?!
Ao chegarmos a Quimbango recuperámos a mota Yamaha após repararmos o seu pneu furado, mas acabámos por decidir deixar para trás uma das Arctic Cat diesel com um filtro entupido… suspeito que nos adulteraram um dos bidons de gasóleo… mas faremos uma revisão na próxima visita.

Estabelecemos o nosso acampamento base junto do Rio Quimbango como planeado, usufruindo de um belo mergulho diário ao entardecer, e sendo mimados pela Dona São que fez questão de cozinhar um jantar para nós todas as noites na casa do Administrador (Foto 3)!

03dez

Ao longo dos dias seguintes explorámos a área com os nossos pastores, percorrendo um total de 300km com as motas e com bastantes caminhadas a pé de permeio. Substituímos os cartões de memória e visitámos novas salinas. Trouxemos igualmente três novas câmaras digitais e baterias externas de 12V para fornecer energia de uma forma bem mais eficiente. Esperamos que estas baterias externas durem pelo menos 4 meses, desta forma libertando-nos do fardo de ter de substituir baterias internas mensalmente. Isto poderá ser especialmente relevante agora, já que o mais provável é que não possamos voltar à reserva antes de Junho. Deixar os pastores com a única incumbência de ter de substituir os cartões de memória a cada 45 dias é uma tarefa bem mais fácil.

Tínhamos bastantes esperanças em relação às quarto câmaras que tinham ficado montadas na reserva, colocadas a mais de 20km de distância entre cada uma. Esperava obter fotos de palanca negra e talvez, quem sabe, a nossa primeira foto de um macho adulto… mas mais uma vez estas criaturas revelaram-se demasiado esquivas! Uma das câmaras não funcionou correctamente e por qualquer razão preencheu os cartões de memória com falsos eventos; uma segunda câmara deu-nos fotos de bambi (Foto 04),

04dez

facocheros (Fotos 05, 06), aves e até de um manguço (Foto 07),

05dez06dez

07dez

mas nada de clientes grandes; uma terceira câmara gravou imagens de bambis e (pela primeira vez) de uma família de javalis africanos (também chamados de "potamocheros") (Foto 08);

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a derradeira câmara era aquela em que depositávamos mais esperanças pois os pastores insistiam que tinha passado uma manada de palancas negras no local… mas o resultado foi… palancas vermelhas?! Algumas das fotos foram muito bonitas e incluíram um belo exemplar de macho adulto (Fotos 09, 10),

09dez

       10dez

mas isto foi uma enorme desilusão! Provou que nós (pastores incluídos) podemos estar erradamente a confundir os rastos das diferentes espécies de palanca, o que também significa que a população real de palanca negra no Luando poderá de ser menor que o que prevíramos antes quando assumimos que a maior parte dos rastos eram de palanca negra e que a palanca vermelha era rara na reserva.

Num novo local em que montámos uma nova câmara, numa salina na orla de uma extensa anhara, mostraram-nos grande quantidade de rastos, alegadamente de palanca negra, mas uma observação cuidada levou-me a crer no contrário… considerando o formato e dimensão das pegadas pareceram-se ser rasto de palanca vermelha. Os pastores não ficaram convencidos e acabámos por fazer uma aposta – na próxima vez veremos o que sai no registo fotográfico para ver quem ganha. Também nos mostraram um acampamento de caçadores furtivos que tinha sido recentemente desmantelado pelos pastores umas semanas antes, e foi interessante verificar que a manada de palancas vermelhas (ou negras?) tinha posteriormente vindo a passar regularmente em cima do acampamento abandonado (Foto 11).

11dez

Estávamos de volta à estaca zero na reserva, mas presumo que é apenas uma questão de persistência até darmos com o local certo. Podemos ter sido extremamente azarados, mas mais provavelmente isto poderá indicar que as palancas negras se tornaram bastante mais esquivas que as vermelhas, ou talvez mais vulneráveis à caça furtiva? E poderá ser uma combinação de vários factores…

Foi difícil despedirmo-nos deste território magnífico, sabendo que ficará fora do nosso alcance nos próximos seis meses… Apesar das condições climatéricas se terem mantido surpreendentemente benignas durante a nossa estadia, com apenas um par de chuvadas a registar, no nosso retorno fomos enfaticamente recordados de como esta bacia pode ser enganadora durante a época chuvosa. Ao voltarmos a pé para o local do carro verificámos que a planície do Luando tinha já começado a ficar inundada com água transbordando do rio (Foto 12).

12dez

Os nossos últimos dois quilómetros foram feitos já em cima de água, em solo lamacento, e por vezes com a linha de água a chegar-nos à cintura (Fotos 13, 14),

13dez  

14dez

enquanto tentávamos desesperadamente manter os nossos equipamentos a seco (confesso que a minha performance foi bastante fraca neste capítulo). Em Janeiro esta região ficará coberta de água numa secção transversal de 5 km e estendendo-se por cerca de 200 km, tornando o Rio Luando uma das mais espectaculares zonas húmidas de África (ver por exemplo Foto 15 tirada em 2004 no pico da época chuvosa)!

15dez

De volta ao LandCruiser tivémos a desagradável surpresa de encontrar o carro assaltado, com uma das janelas laterais partidas, por onde o ladrão entrou e levou um colchão, saco-cama, roupas diversas e uma caixa térmica com comida. Informámos a polícia na comuna de Rimba, onde foram bastante profissionais e se dispuseram prontamente a ajudar. O Bebeca tinha suspeitado de um indivíduo que ele tinha visto junto do rio no primeiro dia, e no nosso regresso de Rimba ele acabou por reconhecer o sujeito num caminho e agarrou-o, enquanto ele se dava ao desplante de levar na mão um molho de chaves e um canivete suíço roubado do carro! Depressa confessou e com a ajuda da polícia e Administrador recuperámos a maior parte do produto do roubo. Não fora a janela partida e teria sido apenas um episódio engraçado!

Um bom natal e boas entradas para 2009!

Pedro