UTRA MACHADO
Saberão os malanjinos quem foi a personagem que deu o nome a uma das ruas mais conhecidas da cidade de Malanje? Aqui ficam alguns dados.
Nas “Anotações” do livro “Angola – Notas e Comentários de Um Colono”, da autoria de Júlio Ferreira Pinto, escrevia o major José Veloso de Castro, em 1925:
Há vinte anos (em 1905, portanto) concluía em Malanje os últimos trabalhos dos reconhecimentos que, com o então tenente Torre do Vale, efectuara nos rios Cuanza e Cuango, quando apareceu a substituí-lo na secção de cartografia do distrito da Lunda, um rapaz que acabara de chegar da Metrópole. Aparentemente tímido e concentrado, como todos os que se encontram de novo num meio diverso e oposto àquele de onde saíram, simples e modesto nas suas atitudes, bem diversas daquelas fanfarronadas que logo revelam os espíritos ocos, esse rapaz disse singelamente: “Venho disposto a trabalhar e a fazer uma carreira colonial, se a saúde me ajudar; se não tiver essa ajuda, voltar-me-ei para a Metrópole.”
Esse rapaz era o tenente Fernando Paes Telles de Utra Machado. Aquelas palavras, na sua simplicidade, eram contudo a revelação de uma vontade firme, que se realizou da forma mais completa. No ano seguinte encontrámo-nos no sul, na campanha contra o Cuamato. “Não compreendo uma carreira colonial sem isto; por isso vim.”. A mesma simplicidade, as mesmas atitudes; mas reconhecia-se que estava já, com firmeza, senhor do meio. Demonstrou-o no decurso de toda a campanha, que foi uma série ininterrupta de combates sangrentos: do Mufilo ao Damequero, viu-se sempre que o brio, o élan, a serenidade, a firmeza na condução dos homens, e o alcance dos objectivos, não estão no ânimo dos fanfarrões e palavrosos, que então emudecem, quando não tremem, mas encontram-se com frequência nessas criaturas frágeis e caladas. O exemplo tínhamo-lo no chefe, que era o general Alves Roçadas.
O capitão Utra Machado foi depois, sucessivamente, secretário do governo da Lunda e governador desse distrito, onde realizou a ocupação militar dos territórios de Cassanje, que até então era o baluarte inexpugnável dos nossos adversários daquelas regiões e a muralha que impedia o acesso à nova Lunda. Depois esteve em Luanda exercendo o governo geral da colónia (1915-1916) e por último dirigiu, como ministro, a administração colonial. A sua “vontade” realizara-se pelo modo mais honroso; e a completá-la tem hoje o sr. Major Utra Machado a regeência duma cadeira de estudos coloniais, na Escola Militar.
Foi este homem quem, ao primeiro alarme de perigo, agitou na Sociedade de Geografia a questão colonial, chamando para ela a atenção da Sociedade e do País, invocando, em palavras de rara grandeza moral e elevado patriotismo, o dever da Nação de, perante esse perigo, despertar do seu sono letárgico para atentar no que há a fazer em defesa das colónias. Seria necessário, disse o sr. major Utra Machado, tocar o sino grande da Sociedade, para despertar a consciência nacional. Um toque de rebate? – Certamente. Foi o que se fez de começo e é o que vai fazer-se agora, segundo o programa de propaganda já publicado, porque existe ainda uma consciência nacional. Despertada essa consciência, haverá narcóticos capazes de a lançar de novo no seu sono letárgico? – Não é justo acreditar numa tal abominação.
Esta obra foi iniciada e é concluída com o fim de cooperar nesse movimento, esclarecendo a opinião portuguesa, que a não conhecer perfeitamente, sobre a situação de Angola. Compreende ela três partes distintas: a crítica histórica da colonização portuguesa; os erros da primeira administração autónoma de Angola; e, finalmente, os princípios de administração que convêm à colónia.
O autor das “anotações”, prestando homenagem ao ilustre professor sr. major Fernando de Utra Machado, dedica-lhe parte da sua colaboração, como penhor de amizade e tributo de respeito de quem só sabe ser guiado por um dever cívico e inspirado pela verdade.
Lisboa, Março de 1926
J. Veloso de Castro
